domingo, 20 de outubro de 2019

Copos meio vazios



"Peguei até o que era mais normal de nós
E coube tudo na malinha de mão do meu coração"

Tudo normal por aqui. Exceto as faltas e ausências e, de tanto teu lugar ficar vazio, eu meio que me acostumei. Olho para o canto da sala -- onde tua poltrona ficava, tu fumava e ouvia jazz -- e já não me incomodo tanto (sempre odiei a fumaça do cigarro mesmo). Na esquina do meu coração, onde eu te guardava com tanto zelo, a poeira assenta, confortável com tanto espaço vazio. Caminhei pela rua do teu vô, foi tão engraçado vê-lo lá do mesmo jeito, molhando os crisântemos sentado, com um copinho de requeijão com café. Ele me viu, acenou com a cabeça, mas eu não encostei. Acho que -- apesar de você não ter deixado claro (mas isso é de ti, eu sei, tu nunca deixa) -- entendo que ele não é meu vô mais (como tua mãe afirmava com tanto afinco). Para mim, meias ausências, copos meio vazios e ligações não retornadas só têm uma explicação: você cansou de mim. Meus pés cansados te entendem; eu também canso às vezes.

Isabel.

domingo, 22 de setembro de 2019

Por aqui


Hoje é aniversário do blog de 5 anos. Descobri por acaso, porque fui fazer o mês de setembro na agenda e calhou de ver. Hoje fiquei o dia incomodada, talvez pela morte de (mais) uma criança inocente, talvez por mim mesmo, talvez por nada. Não queria deixar essa data assim, então vim aqui escrever um pouco. Ganhei um livro de poemas e estou lendo-o devagar. Toda vez que vou continuar a ler, volto para os poemas que mais gostei e releio infinitas vezes, faço mais anotações, leio um novo poema e fecho o livro para fazer algo que a vida real me exige.

Quem você levaria para uma ilha deserta (2019)

Comecei a reler Percy Jackson hoje, pela décima vez. Um vídeo que a Jout Jout fez sobre reler um livro com outra idade me impulsionou a fazer o que eu queria há um tempo. Como minha edição de PJO está longe, estou lendo o epub (pena porque tem um monte de anotação no físico). Quando terminar quero reler Harry Potter para ver se simpatizo mais com a história agora que a minha criatividade infantil não existe mais (todos os meus voos têm sido baixos desde que ela se fora). Escutei Sálvame o dia todo, e também áudio de desculpas. Ser de verdade tem um preço e eu sempre pago. Arranquei de uma vez o band aid e vi toda a segunda temporada de Elite. Irmãos. Não sei o que dizer.

No mais, esse pedaço de internet que habito tem me feito muito bem nos últimos cinco anos. Espero ansiosa (porém nem tanto, estou curtindo esse momento de agora) pelos próximos cinco.

Cheiro,


Bebel.

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Cotidiano


Eu gosto do cheirinho de pão da varanda
Do barulho de ensaios do 7 de setembro
Eu gosto de pensar no mundo microscópico que ninguém – quase ninguém – repara
Eu gosto de sentir o vento bater nos meus braços
Gosto do sol quente fazendo transpirar a minha pele
Gosto do significado que eu dou para as coisas
E gosto mais ainda de falar sozinha.

Gosto do silêncio ameno em meio ao barulho
Gosto de respirar fundo
De luzes que piscam
De todos os absurdos
Que não fazem o menor sentido.

 Gosto de fingir que existo
Gosto de fingir que não
Gosto de carinho na cabeça
E de me sentir tão bem na solidão.

Gosto de lágrimas ao escrever
(como essas de agora)
Gosto mais ainda do jeito que você me vê
E que a gente se ignora.

Gosto de sentir tanto
E de sentir nada
De realmente dormir de madrugada
Gosto de respirar em meio ao caos
Gosto de sentir felicidade
Felicidade lispectiana.

Gosto de todas as palavras saídas da minha boca
E do jeito que eu encuco com alguém para,
Depois,
Ver que eu estava certa
Gosto de ser e simplesmente ser
Gosto de pedir desculpas
Por erros que eu acho que cometi
Gosto de me apaixonar, pois escrevo melhor.

Eu costumava amar a dor,
Porque nela me encontrava
Mas agora onde estou
Só me encontro no amor
Terra fértil que faz brotar tudo de bom
E se eu me encontro no amor
É porque dele sou feita
E se eu me encontro no amor
Não guardo espaço para além.

E se você não vê isso
A culpa não me pertence.
(não mais)




Andei sumida porque estava em um longo processo de reencontro e reconstrução. Respirar é bom, estar de volta também.





Bebel :3